quinta-feira, 30 de maio de 2013

Redação- Linguagem - Leitura e Interpretação - Dialogismo e Neologismo.

Linguagem

Linguagem é o sistema através do qual o homem comunica suas ideias e sentimentos, seja através da fala, da escrita ou de outros signos convencionais. Linguística é o nome da ciência que se dedica ao estudo da linguagem.
Na linguagem do cotidiano, o homem faz uso da linguagem verbal e não-verbal para se comunicar. A linguagem verbal integra a fala e a escrita (diálogo, informações no rádio, televisão ou imprensa, etc.). Todos os outros recursos de comunicação como imagens, desenhos, símbolos, músicas, gestos, tom de voz, etc., fazem parte da linguagem não-verbal.
A linguagem corporal é um tipo de linguagem não-verbal, pois determinados movimentos corporais podem transmitir mensagens e intenções. Dentro dessa categoria existe a linguagem gestual, um sistema de gestos e movimentos cujo significado se fixa por convenção, e é usada na comunicação de pessoas com deficiências na fala e/ou audição.
Linguagem mista é o uso da linguagem verbal e não-verbal ao mesmo tempo. Por exemplo, uma história em quadrinhos integra, simultaneamente, imagens, símbolos e diálogos.
Dependendo do contexto social em que a linguagem é produzida, o falante pode usar a linguagem formal (produzida em situações que exigem o uso da linguagem padrão, por exemplo, salas de aula ou reuniões de trabalho) ou informal (usada quando existe intimidade entre os falantes, recorrendo a expressões coloquiais).
As linguagens artificiais (que são criadas para servirem a um fim específico, por exemplo, a lógica matemática ou a informática) também são designadas por linguagens formais. A linguagem de programação de computadores é uma linguagem formal que consiste na criação de códigos e regras específicas que processam instruções para computadores.
Oralidade e Escrita
   Muitas vezes quando você pega sua redação corrigida pelo professor, encontra a seguinte mensagem: evite usar a oralidade!
   A não ser que seja uma narração, e a linguagem oral seja uma característica da personagem, a fala deve ficar restrita às nossas conversas informais com os amigos ou familiares.
   Mas por que usar a oralidade em um texto é tão ruim? Porque não é o momento apropriado para que isso ocorra. A modalidade escrita exige uma formalidade e um planejamento que a modalidade falada não possui.
   A linguagem coloquial é mais proeminente em situações informais, nas quais o apego à gramática é desnecessário. Portanto, é incoerente utilizar essa mesma linguagem para circunstâncias divergentes, como no caso da elaboração de uma redação dissertativa ou de qualquer tipo de texto que será avaliado.
   Claro, lembre-se que há a exceção apontada acima: em narrações ou na reprodução da fala de alguém o uso do coloquialismo é coerente!
    Tudo depende da adequação à situação experimentada. Por exemplo, o telejornal é falado, contudo, os textos ali pronunciados pertencem à modalidade escrita. Não seria conveniente que um dos apresentadores falasse:
"E aí, pessoas! Boa noite! Vocês sabiam que os senadores inventaram outro “ganha pão”? Agora eles têm um dinheiro extra só para comprar ternos!"
  Tem cabimento?


                                      Variedades Linguísticas

LINGUAGEM E LINGUA

LINGUAGEM:
Linguagem é a representação do pensamento por meio de sinais que permitem a comunicação e a interação entre as pessoas.

-Linguagem verbal: é aquela que tem por unidade a palavra.

-Linguagem não verbal: tem outros tipos de unidade, como gestos, o movimento, a imagem e etc.

-Linguagem mista:  como as histórias em quadrinhos, o cinema e a tv que utilizam a imagem e a palavra.


LÍNGUA:
É o tipo de código formado por palavras e leis combinatórias por meio do qual as pessoas se comunicam e interagem entre si.

Variedades linguísticas:
São as variações que uma língua apresenta, de acordo com as condições sociais, culturais, regionais e históricas em que é utilizada.

-Norma culta: é a língua padrão, a variedade linguística de maior prestígio social.

-Norma popular: são todas as variedades linguísticas diferentes da língua padrão.


DIALETOS:
São variedades originadas das diferenças de região, de idade, de sexo, de classes ou de grupos sociais e da própria evolução histórica da língua(ex.: gíria) 

Intencionalidade discursiva: são as intenções, explícitas ou implícita, existentes na linguagem dos interlocutores que participam de uma situação comunicativa.


Conceituado:
Texto: É uma unidade linguística concreta, percebida pela audição (na fala) ou pela visão (na escrita), que tem unidade de sentido e intencionalidade comunicativa.

Discurso: É a atividade comunicativa capaz de gerar sentido desenvolvida entre interlocutores. Além dos enunciados verbais, engloba outros elementos do processo comunicativo que também participam da construção do sentido do texto.

Coesão textual são as articulações gramaticais existente entre palavras, orações, frases, parágrafos e partes maiores de um texto que garantem sua conexão sequencial.

Coerência textual é o resultado da articulação das idéias de um texto ; é a estruturação lógico- semântica que faz com que numa situação discursiva palavras e frases componham um todo significativo para os interlocutores.


Leitura e Interpretação

LEITURA 


    Denomina-se leitura a compreensão de uma mensagem codificada em signos visuais (geralmente letras e cifras). O ensino e o incentivo da leitura representam, portanto, um objetivo básico de todo sistema educativo.
     Normalmente existem duas espécies de leitura: uma praticada por cultura geral ou entretenimento desinteressado, que ocorre quando você lê uma revista ou um jornal; e outra que requer atenção especial e profunda concentração mental, realizada por necessidade de saber, como por exemplo, quando você lê um livro, um texto de estudo ou uma revista especializada. 
      Para que a leitura seja eficiente, eficaz e proveitosa, orienta-se dedicada atenção no que se está lendo, caso contrário a leitura será superficial e, portanto, pouco entendida. Além de atenção, há necessidade de velocidade na leitura. Pela orientação de Galliano (1986:70), ao ler um parágrafo, o leitor deve fazer uma leitura rápida, obedecendo as pausas que, com um bom treinamento, passam ser momentos de fixação. 
     Cada assunto requer uma velocidade própria de leitura, se o seu campo de visão for estreito, limitando somente a palavra que você está lendo naquele momento, a sua leitura se tornará lenta. Quando o comportamento ocorre desta maneira, sua percepção acaba ligando palavras sem sentido, devido às interrupções das pausas e o ritmo apropriado. Quanto mais lenta é a leitura, mais facilmente a atenção se dispersa. 
    A leitura, apesar da individualidade do ato realizado, é um ato social, pois existe um processo de comunicação e de interação entre o leitor e o autor do texto, ambos com objetivos estabelecidos anteriormente dentro do contexto de cada um. Apesar de, aparentemente simples e tão natural, o processo de leitura possui uma complexidade que está subjacente porque depende do processamento humano de informações e da cognição de quem lê. 
   Cada leitor deve preocupar-se com o texto que esta lendo, já que esse deve ser sistematizado e com o objetivo de fornecer informações para uma melhor assimilação, possibilitando uma leitura mais rica e proveitosa. 
   Em relação a dificuldade do leitor enquanto, texto x Leitor, a figura a seguir pode exemplificar: 

  • Legenda: L: leitor; T: texto; C: contexto.
  • Situação 1: o texto utilizado corresponde ao nível de habilidade do leitor,mas o contexto não é pertinente;
  • Situação 2: o leitor é colocado num contexto favorável, mas o texto não é adequado às suas capacidades;
  • Situação 3: nenhuma das variáveis se relaciona: o leitor lê um texto que não está no seu nível e o contexto da leitura não é adequado. 

O conhecimento textual faz parte do conhecimento prévio do leitor, e é uma das condições para que haja compreensão de leitura, quanto mais habilidade e familiaridade o leitor possuir a respeito de tipologias e estruturas textuais, mais facilidade ele terá na busca por compreensão. 

ESTUDO DO TEXTO 

       Para estudar um determinado texto, devemos fazê-lo como um todo até adquirir uma visão global, para que possamos dominar e entender a mensagem que o autor pretendia relatar quando escreveu. Os textos de estudos requerem reflexão por aqueles que os estudam e, portanto, a leitura dos mesmos exige um método de abordagem. Devemos compreender, analisar, interpretar e, para isso, temos que criar condições capazes de permitir a compreensão, a análise, a síntese e a interpretação de seu conteúdo. 

Analisar – decompor um texto completo em suas partes para melhor estudá-las. Sintetizar – reconstituir o texto decomposto pela análise. Interpretar – tomar uma posição própria a respeito das idéias enunciadas no texto, isto é, dialogar com o autor. 

ANÁLISE 

Para analisamos um texto devemos fazer por etapas, possibilitando por fim, a construção de um raciocínio global, obedecendo a algumas etapas de análises: 

 Análise Textual, que consiste em buscar informações a respeito do autor do texto, verificar o vocabulário, entre outros, podendo ser finalizada com uma esquematização do texto, tendo como finalidade apresentar uma visão de conjunto da unidade; 
 Análise Temática procura ouvir o autor, apreender sem intervir, fazendo ao texto uma série de perguntas, onde as respostas fornecem o conteúdo da mensagem; 
 Análise Interpretativa visa a interpretação, segundo situações das idéias do autor, faz-se uma leitura analítica, objetivando o amadurecimento intelectual; 
 Problematização visa o levantamento do problema relevante, para a reflexão pessoal e discussão em grupo; 
 Síntese Pessoal consiste na construção lógica de uma redação, baseada na problemática levantada pelo texto; E por fim conclui valorizando a leitura analítica como responsável no desenvolvimento de posturas lógicas na vida do estudante-leitor. 

ANÁLISE TEXTUAL 

   Análise Textual é a leitura visando obter uma visão do todo, dirimindo todas as dúvidas possíveis, e um esquema do texto. 
   Para efetiva-la, inicialmente o leitor deve ler o texto do começo ao fim, com o objetivo de uma primeira apresentação do pensamento do autor. Não há necessidade dessa leitura ser profunda. Trata-se apenas dos primeiros contatos iniciais, quando se sugere que já sejam feitas anotações dos vocábulos desconhecidos, pontos não entendidos em um primeiro momento, e todas as dúvidas que impeçam a compreensão do pensamento do autor. 
   Após a leitura inicial, o leitor deve esclarecer as dúvidas assinaladas que, dirimidas, permitem que o leitor passe a uma nova leitura, visando a compreensão do todo. Nesta segunda leitura, com todas as dúvidas resolvidas, o leitor prepara um esquema provisório do que foi estudado, que facilitará a interpretação das idéias e/ou fenômenos, na tentativa de descobrir conclusões a que o autor chegou. 
   É necessário o leitor relembrar que análise significa estudar um todo, dividindo em partes, interpretando cada uma delas, para a compreensão do todo. Quando se faz análise de texto, penetramos na ideia e no pensamento do autor que originou o texto. Para que o estudo do texto seja completo, temos que decompô-lo em partes e, ao fazê-lo, estamos efetuando sua análise. 

ANÁLISE TEMÁTICA 
  É o momento em que vamos nos perguntar se realmente compreendemos a mensagem do autor do texto é a compreensão e apreensão do texto, que inclui: idéias, problemas, processos de raciocínio e comparações Aqui devemos recuperar: 
  • O tema do texto; 
  • O problema que o autor se coloca; 
  • A ideia central e as secundárias do texto. 
  Normalmente isto é feito junto com o esquema do texto. Nele, você irá indicar cada um dos itens acima, reconstruindo o raciocínio do autor do texto; recuperando seu processo lógico. 
  É através do raciocínio que o autor expõe, passo a passo, seu pensamento e transmite a mensagem. O raciocínio, a argumentação, é o conjunto de idéias e proposições logicamente encadeadas, mediante as quais o autor demonstra sua posição ou tese. Estabelecer o raciocínio de uma unidade de leitura é o mesmo que reconstruir o processo lógico, segundo o qual o texto deve ter sido estruturado: com efeito, o raciocínio é a estrutura lógica do texto. 
  Finalmente, é com base na análise temática que se pode construir organograma lógico de uma unidade: a apresentação geometrizada de um raciocínio. 

ANÁLISE INTERPRETATIVA 

  A análise interpretativa é a terceira abordagem do texto com vista à sua interpretação, mediante a situação das idéias do autor. A partir da compreensão objetiva da mensagem comunicada pelo texto, o que se tem em vista é a síntese das idéias do raciocínio e a compreensão profunda do texto não traria grandes benefícios. 
  Interpretar, em sentido restrito é tomar uma posição própria a respeito da idéias enunciadas, é superar a estrita mensagem do teto, é ler nas entrelinhas, é forçar o autor a dialogar, é explorar toda fecundidade das idéias expostas, enfim, dialogar com o autor. 
  No primeiro momento da interpretação, busca-se determinar até que ponto o autor conseguiu atingir, de modo lógico, os objetivos que se propusera alcançar; pergunta-se até que ponto o raciocínio foi eficaz na demonstração da tese proposta e até que ponto a conclusão a que chegou está realmente fundada numa argumentação sólida e sem falhas, coerente com as suas premissas e com árias tapas percorridas. 
  Num segundo ponto de vista, formula-se um juízo crítico sobre o raciocínio em questão: até que ponto o autor consegue uma colocação original, própria, pessoal, superando a pra retomada dos textos de outros autores, até que ponto o tratamento dispensado por ele ao tema é profundo e não superficial e meramente erudito; trata-se de se saber anda qual o alcance, ou seja, a relevância e a contribuição específica do texto para o estudo do tema abordado. 

PROBLEMATIZAÇÃO 

  É a quarta abordagem com vistas ao levantamento dos problemas para a discussão do texto. Rever todo o texto para se ter elementos para reflexão pessoal e debate em grupo. 
  Os problemas podem situar-se no nível das três abordagens anteriores; desde problemas textuais, os mais objetivos e concretos, até mais difíceis problemas de interpretação, todos constituem elementos válidos para a reflexão individual ou em grupo. O debate e a reflexão são essenciais à própria filosófica científica. 

Devemos, portanto: 

  •  Ler atentamente o texto e questioná-lo, procurando encontrar as respostas para os questionamentos iniciais.Assinalar em uma folha de papel os termos, conceitos, idéias etc, que deverão ser pesquisados após a leitura inicial. 
  •  Fazer a segunda leitura e, a partir daí, sublinhar a ideia principal, os pormenores mais significativos, enfim, os elementos básicos da unidade de leitura. 
 A prática possibilitará que o leitor perceba que raramente será necessário sublinhar uma oração inteira. Quase sempre é uma palavra-chave que se apresenta como elemento essencial. Na realidade, a regra fundamental é sublinhar apenas o que é importante para o estudo realizado, e somente depois de estar seguro dessa importância. O correto é que, ao ler o sublinhado, seja possível obter claramente o conteúdo do que foi lido. 

ANÁLISE PESSOAL 

  A discussão da problemática levantada pelo texto, bem como a reflexão a que ele conduz, devem levar o leitor a uma frase de elaboração pessoal ou de síntese. Trata-se de uma etapa ligada antes à construção lógica de uma redação do que à leitura como tal. 
  De qualquer modo, a leitura bem feita deve possibilitar ao estudioso progredir no desenvolvimento das idéias do autor, bem como daqueles elementos relacionados com elas. Ademais, o trabalho de síntese pessoal é sempre exigido no contexto das atividades didáticas, quer como tarefa específica, quer como parte de relatórios ou de roteiro de seminários. Significa também valioso exercício de raciocínio – garantia de amadurecimento intelectual. Como a problematização, esta etapa se apóia na retomada de pontos abordados em todas as etapas anteriores. 


Interpretação 

  Interpretar é tomar uma posição própria a respeito das idéias do autor, é ler nas entrelinhas, é forçar o autor a um diálogo, é explorar as idéias expostas, é ter capacidade de compreensão e crítica do texto. Interpretação é processo, num primeiro momento, de dizer o que o autor disse, parafraseando o texto, resumindo-o; é reproduzir as idéias do texto. Num segundo momento, entende-se interpretação como comentário, discussão das idéias do autor. A análise interpretativa conduz o leitor a atuar como crítico do que o autor escreveu. 
  Para que haja uma boa leitura é indispensável que o leitor domine a língua, sendo capaz de conhecer a língua padrão, conhecer as variantes da língua, gerar sequencias linguísticas gramaticais, produzir e compreender textos, enfim, desenvolver suas habilidades e competência linguística  podendo assim interagir no mundo da leitura da forma madura e produtiva. 

  Para realizar a análise interpretativa de um texto devemos realizar os seguintes procedimentos: 
 Reler o texto, assinalando ou anotando palavras ou expressões desconhecidas, valendo-se de um dicionário para esclarecer seus significados; 

 Não se deixe tomar pela subjetividade; 

  •  Relacione as idéias do autor com o contexto filosófico e científico de sua época e de nossos dias; 
  •  Faça a leitura das “entrelinhas” a fim de inferir o que não está explícito no texto; 
  •  Adote uma posição crítica, a mais objetiva possível, com relação ao texto.Essa posição tem de estar fundamentada em argumentos válidos, lógicos e convincentes; 
  •  Faça o resumo do que estudou; 
  •  Discuta o resultado obtido no estudo. 
É preciso observar que a concepção da compreensão na leitura ampliou-se, consideravelmente, nas últimas décadas no que diz respeito à participação do leitor. A atitude do leitor frente ao texto, anteriormente vista como recepção passiva de mensagens, passou a considerar o processamento mental de informação da compreensão e evoluiu para uma perspectiva de interação entre o leitor e o texto. 
Ao finalizar a análise interpretativa, com certeza, o leitor terá adquirido conhecimento qualitativo e quantitativo sobre o tema estudado. 

SÍNTESE TEXTUAL 


A leitura analítica serve de base para o resumo ou síntese do texto ou livro. Entende – se que é a apresentação concisa dos pontos relevantes de um texto. 
Esta é uma etapa que você só pode fazer se já tiver um bom acúmulo de leituras sobre o tema, conhecendo bem o assunto, tendo lido outros autores sobre o que foi estudado e conhecendo as críticas que se fazem àquele autor e àquelas idéias, após essa análise você pode começar a problematizar o texto. Na prática, isso significa levantar e discutir problemas com relação à mensagem do autor. 

CONCLUSÃO 

Embora se tenha consciência de que, nomeadamente nos textos literários, a experiência de leitura é conexa do reconhecimento da pluralidade de interpretações, é igualmente necessário sublinhar que o contexto de interpretação é validado por um conjunto de elementos textuais e socio-históricos que implicam que nem todo o ato interpretativo é por si mesmo legitimado. Isto significa que ler e interpretar são atos de percepção relacional e argumentativa, e que esta sua fundação não deve ser ignorada. 
Não basta ser alfabetizado para realmente saber ler. Há leitores que deixam os olhos passarem pelas palavras, enquanto sua mente voa por lugares distantes. Esses lêem apenas com os olhos e só percebem que não leram quando chegam ao fim de uma página, um capítulo ou um livro. Então devem recomeçar tudo de novo porque de fato não aprenderam a ler. É preciso ler, mas, também é preciso saber ler. Não adianta orgulhar-se que leu um livro rapidamente em algumas dezenas de minutos, se ao terminar a leitura é incapaz de dizer sobre o que acabou de ler.


Dialogismo e Neologismo

Dialogismo

     O conceito de dialogismo foi elaborado pelo linguista russo Mikhail Bakhtin, que o explica como o mecanismo de interação textual muito comum na polifonia, processo no qual um texto revela a existência de outras obras em seu interior, as quais lhe causam inspiração ou algum influxo.
       O dialogismo está presente tanto nas obras impressas como na própria leitura, esferas nas quais o discurso não é observado em um contexto de incomunicabilidade, mas sim em constante ação recíproca com textos semelhantes e/ou imediatos. Este elemento aparece quando se instaura um processo de recepção e percepção de um enunciado, que preenche um espaço pertencente igualmente ao locutor e ao locutário.
      Assim, os participantes de uma conversação elaboram um fluxo dialógico ao posicionarem o ato da linguagem em uma interação frente a frente. Bakhtin acredita que o diálogo engloba qualquer transmissão oral, de toda espécie. Este conceito é praticamente a alma de sua teoria linguística.
     Para o estudioso russo, todos os personagens que circulam no âmbito da linguagem constituem elementos sociais e históricos que têm o poder de conferir significados reais e se estruturam regularmente na obra ficcional, expressando seus pontos de vista sobre a realidade concreta.
Bakhtin identifica no romance os diálogos puros, além da inter-relação dialogizada e da hibridização, que pode ser definida como uma miscelânea de duas linguagens, sendo considerada uma das vertentes mais importantes do mecanismo de modificação dos meios de expressão do pensamento.
     A hibridização dos diálogos prepondera na análise da obra; ela é compreendida como um processo de aliança que procura elucidar uma linguagem com o auxílio de outra e, assim, estrutura a representação natural e vivaz desta outra forma de expressão. É fundamental que se utilize, neste procedimento, o uso de diversas linguagens, para esclarecer ainda mais o texto original.
     O linguista russo salienta também a importância da estilização, um recurso dialógico interior que produz um estilo renovado, com significância e destaque nascentes. Esta linguagem surge com ecos peculiares, pois enquanto alguns de seus aspectos são iluminados, outros são preservados imersos em névoas.
     A paródia é outro recurso específico, no qual o dialogismo por ela simbolizado desvela o texto que está sendo figurado. As mais variadas linguagens regidas pelas inter-relações, aspirações orais e racionais que residem nos enunciados estão situadas no espectro que se desenrola entre a estilização e a paródia.
     O dialogismo não se desenvolve apenas socialmente, mas igualmente na esfera temporal, na dinâmica da vida e da morte. A convivência entre as pessoas e a progressão no tempo se aliam na unicidade consistente de uma multiplicidade paradoxal, a qual se manifesta por meio de variadas linguagens.

Neologismo 

O próprio significado da palavra neologismo o define: nova palavra. Os neologismos são muito comuns na mídia e também com os recém-chegados como, por exemplo, a internet. Nesta, encontramos vários termos que acabaram se tornando cotidianos em nosso vocabular: deletar, printar, escanear, mouse, site e etc. 

Esses termos surgem como um modo de suprir uma necessidade vocabular momentânea, transitória ou permanente. 
Momentânea: surge bruscamente em um diálogo entre amigos. Pode até ter uma repercussão maior, mas acaba sendo esquecida com o tempo: somatoriar. 

Transitória: aparece em um determinado grupo e se espalha para os demais. Pode tanto ser esquecida, como pode se tornar parte do vocabulário da língua: mensalão. 

Permanente: surge rapidamente, mas por ser muito utilizada, acaba por se estabelecer de vez no idioma e se tornar parte do léxico: deletar. 

Geralmente, os neologismos são criados a partir de processos que já existem na língua: justaposição, prefixação, aglutinação e sufixação. 

Podemos dizer que neologismo é toda palavra que não existia e passou a existir, independente do tempo de vida. 

Pode ser ainda a aquisição de palavras pertencentes à outra língua, como em alguns dos termos na informática, já citados acima. Ainda pode ser um novo sentido que damos a termos já existentes, como por exemplo, a palavra burro, que ganhou novo significado: pessoa que não é inteligente! 

O neologismo está presente na representação de sons (puf!, Vrum!, miar, piar, tibum, chuá, cataplaft, etc) e na linguagem do msn (blz, flw, t+, qq, vc, ker, abc, xau, bju, etc). 

Nesta última, até mesmo os próprios símbolos são neologismos, uma vez que estes representam a linguagem não verbal e são considerados como parte da língua: =) (feliz), =( (triste). 

Nós, como falantes, sentimos necessidade em criar e recriar palavras e sentidos, pois a língua é viva e apresenta muitas possibilidades de transformações, inovações. 

Um exemplo muito citado de neologismo está no poema de Manuel Bandeira que possui este mesmo título: 
Beijo pouco, falo menos ainda. Mas invento palavras Que traduzem a ternura mais funda E mais cotidiana. Inventei, por exemplo, o verbo teadorar. Intransitivo: Teadoro, Teodora.


Redação - Descrição - Narração - Dissertação

Descrição - Narração - Dissertação

Descrição

"O ato de retratar com palavras uma cena, uma imagem, um fato de forma objetiva ou subjetiva."

É a utilização da linguagem verbal para construir imagem que represente seres ou situações que estão claras apenas para quem as vê.
O que é necessário entender no processo descritivo é a maior ou a menor objetividade e a sua conseqüente maior ou menor subjetividade que também podem ser sintetizados pelas expressões:

visão psicológica - subjetiva;
visão física - objetiva.

Auto-retrato

Simpático, romântico, solteiro,autodidata, poeta, socialista.Da classe 38, reservista,de outubro, 22, Rio de Janeiro.Com bossa de qualquer bom brasileiro.Possuo o sangue quente de um artista.Sou milionário em senso humorista,mas juro que estou duro e sem dinheiro.Há quem me julgue um poeta irreverente,mentira, é reação da burguesia,que não vive, vegeta falsamente,num mundo de doente hipocrisia.Mas meu mundo é belo e diferente:vivo no amor ou vivo na poesia...E assim eu viverei eternamente,se não morrer por outra Ana Maria.Juca Chaves, História da musica popular brasileira.nº 41, Editora Abril Cultural, São Paulo, 1971


Narração

"Narrar é contar um fato, um momento, um episódio, uma situação vivida ou criada como fruto da imaginação."

"Em uma noite chuvosa do mês de agosto, Mateus e o irmão caminhavam pela rua mal-iluminada que conduzia a sua residência. Subitamente foram abordados por um homem estranho. Pararam atemorizados e tentaram saber o que o homem queria, receosos de que se tratasse de um assalto. Era, entretanto, somente um bêbado que tentava encontrar, com dificuldade o caminho de casa."

Narração em 1ª pessoa.

É o narrador que participa de ação, incluindo-se na narrativa, ou o que chamamos e entendemos como narrador-personagem.

"Estava andando pela rua quando de repente tropecei em um pacote embrulhado em jornais. Peguei-o vagarosamente. abri-o e vi, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro. Imediatamente pensei, oba."

 Narração em 3ª pessoa.

É o narrador que não participa da ação, ele não se inclui na narrativa, trata-se do conhecido narrador-observador.

"Teodoro estava andando pela rua quando de repente tropeçou em um pacote embrulhado em jornais. Pegou-o vagarosamente, abriu-o e viu surpreso uma grande quantia em dinheiro que como conseqüência traria alegria, o que o deixou muito feliz."

Como narrar esquematicamente.

1º Parágrafo - introdução - O esclarecimento sobre o fato que será narrado com a respectiva determinação do tempo e lugar no qual ocorrem os fatos.

 Parágrafo - desenvolvimento - A causa do fato propriamente dito com a apresentação dos personagens e o modo como as coisas acontecem.

3º Parágrafo - conclusão - As conseqüências do fato exposto em todo o texto.

Em tempos

Os elementos de um texto narrativo.

Enredo
Ação: linear e não-linear
Tempo: cronológico e psicológico.
Personagens: protagonista - antagonista - secundário - plano - redondo.
Espaço: urbano - rural.
Foco narrativo: 1ª pessoa - 3ª pessoa.

Dissertação
"Consiste fundamentalmente no ato de opinar, argumentar, defender um ponto de vista com objetividade e clareza."

Dissertação é um texto que se caracteriza pela exposição, defesa de uma idéia que será analisada e discutida a partir de um ponto de vista. Para tal defesa o autor do texto dissertativo trabalha com argumentos, com fatos, com dados, os quais utiliza para reforçar ou justificar o desenvolvimento de suas idéias.

Organiza-se, geralmente, em três partes:
  • Introdução - onde você explicita o assunto a ser discutido, com a apresentação de uma idéia ou de um ponto de vista que pretende defender.
  • Desenvolvimento ou argumentação - em que irá desenvolver seu ponto de vista. Para isso, deve argumentar, fornecer dados, trabalhar exemplos, se necessário.
  • Conclusão - em que dará um fecho coerente com o desenvolvimento e com os argumentos apresentados. Em geral, a conclusão é uma retomada da idéia apresentada na introdução, agora com mais ênfase, de forma mais conclusiva, onde não deve aparecer nenhuma idéia nova, uma vez que você está fechando o texto.
  • O texto dissertativo argumentativo destina-se ao chamado "leitor universal", ou seja, a qualquer pessoa que tenha acesso a ele. Devem ser textos abrangendo conceitos amplos, genéricos, evitando particularizar situações. As construções mais adequadas, procurando evitar-se a 1ª pessoa do singular, seriam:
                    "Notamos que grande parte dos brasileiros..."
                    "Observa-se que uma parcela da população..."
                    
  • quarta-feira, 29 de maio de 2013

    OBRAS LITERÁRIAS VESTIBULAR ACAFE INVERNO 2013 e VERÃO 2014/ UFSC 2014


    OBRAS LITERÁRIAS VESTIBULAR ACAFE INVERNO 2013 e VERÃO 2014



    Obra
    Autor
    A hora da estrela
    Clarice Lispector
    Amar, verbo intransitivo
    Mário de Andrade
    Clarissa
    Érico Veríssimo
    Gabriela, cravo e canela
    Jorge Amado
    Helena
    Machado de Assis
       
                         
    Os livros de literatura do Vestibular UFSC 2014.

    1 - Machado de Assis - HELENA http://www.culturatura.com.br/obras/Helena.pdf
    3 - Mário de Andrade - AMAR, VERBO INTRANSITIVO 
    4 - Vinicius de Moraes - ORFEU DA CONCEIÇÃO 
    5 - Jorge Amado - GABRIELA, CRAVO E CANELA 
    6 - Clarisse Lispector - A HORA DA ESTRELA 
    7 - Cruz e Souza - ÚLTIMOS SONETOS Editora UFSC e 
    8 - Jair Francisco Hamms - O DETETIVE DE FLORIANÓPOLIS 

    Resumos - Obras Literárias Vestibular ACAFE/UFSC

    Amar, Verbo Intransitivo





    Este romance é definido pelo autor como Idílio (s. m. Pequena composição poética, campestre ou pastoril; amor simples e terno; sonho; devaneio.) e abusa das técnicas modernas, usando uma linguagem coloquial, perto do falar brasileiro (por exemplo, começando frases por pronomes oblíquos), sem capítulos definidos, prosa telegráfica, expressionismo, construído através de flashs, resgatando o passado ou fixando o presente. Publicado em 1927, o Idílio causou impacto. Desafiou preconceitos, inovou na técnica narrativa. Sem nenhum prêambulo, Souza Costa e Elza surgem no livro. Souza Costa é o pai de uma típica família burguesa paulista do início do século.

    Elza, uma alemã que tinha por profissão iniciar sexualmente os jovens. Professora de amor. Souza Costa contrata os "serviços" de Elza (que por todo o livro é tratada por Fräulein - senhora em alemão) com o intuito de que seu filho inicie sua vida sexual de forma limpa, asséptica, sem se "sujar" com prostitutas e aproveitadoras. Ela afirma naturalmente que é uma profissional, séria, e que não gostaria de ser tomada como aventureira. Oficialmente, Fräulein seria a professora de alemão e piano da família Souza Costa. Carlos aparece brincando com as irmã, ainda muito "menino". Fräulein se ressente por não prender a atenção de Carlos no início, ele era muito disperso, mas gradualmente vai envolvendo-o na sua sedução. Eles tinham todas as tardes aulas de alemão e cada vez mais Carlos se esforçava para aprender (o alemão?!) e aguardava ansioso as aulas.
    Fräulein, em momentos de devaneios, criticava os modos dos latinos, se sentia uma raça superior, admirava e lia incessantemente os clássicos alemães, Goethe, Schiller e Wagner. Compreendia o expressionismo mas voltava à Goethe e Schiller. A esposa de Souza Costa, vendo as intimidades do filho para com ela, resolve falar com Elza e pedir para que deixem a família. Fräulein esclarece seu propósito de forma incrivelmente natural, e após uma conversa com o marido, a mãe decide que é melhor para seu filho que ela continuasse com suas lições. O livro é permeado de digressões. Mário de Andrade freqüentemente justifica alguns pontos (antes que o critiquem), analisa fatos, alude à psicologia, à música e até mesmo à Castro Alves e Gonçalves Dias. Mário compara a vida dos extrangeiros nos trópicos, entre Fräulein e um copeiro japonês.


    Mostra a dicotomia de pensamento de Fräulein entre o homem-da-vida (prático, interessado no dinheiro do serviço) simbolizado por Bismarck - responsável pela unificação da Alemanha em 1870 à ferro e fogo e Wagner, retratando o homem-do-sonho. O homem-do-sonho representa seus desejos, suas vontades, voltar a terra natal, casar e levar uma vida normal. Mas quem vence em Fräulein é o homem-da-vida, que permite que ela continue o serviço sem se questionar. Carlos após ter tido "a"aula mestra, começa a viciar-se em "estudar". Certamente a didática de Fräulein era muito boa. Era tempo para Fräulein se despedir, tendo este trabalho concluído. Ela sabia que os afastamentos eram sempre seguidos de muitos protestos e gritos.
    Souza Costa surpreende Carlos com Fräulein (tudo já armado) e utiliza-se deste pretexto para separá-los. Carlos reage defende Fräulein, mas mesmo ele fica aturdido diante do argumento do pai: e se ele tivesse um filho? Ainda relutante, ele deixa-a ir. Depois algumas semanas apático, Carlos volta a viver normal. O livro acaba mas continua. Escreve Mário de Andrade - "E o idílio de Fräulein realmente acaba aqui. O idílio dos dois. O livro está acabado. Fim. (...) O idílio acabou. Porém se quiserem seguir Carlos mais um poucadinho, voltemos para a avenida Higienópolis. Eu volto." Após se recupear, Carlos avista acidentalmente Fräulein, já em um novo trabalho, e apenas saudou-a com a cabeça. A vida continua para Carlos. Fräulein ainda iria seguir com 2 ou mais trabalhos para voltar à sua terra.

    Obra na integra:



    BEIJO NO ASFALTO





    “O beijo no asfalto” é um dos vários clássicos de Nelson Rodrigues e dá o que falar aos seus leitores! Uma história surpreendente, cheio de malícia e ao mesmo tempo poesia. Afinal, poesia, vulgaridade e Nelson Rodrigues são um trio perfeito!!!!
    Arandinho é casado com Selminha e tem um sogro chamado Aprígio. Arandinho sempre foi um homem apaixonado por sua mulher e sempre a respeitou. Um certo dia, Arandinho sai de casa e é testemunha de um atropelamento. O homem que foi atropelado, agoniza no meio fio. Todos olham. Acontece um murmurinho intenso. A ambulância nunca chega. Arandinho, ao ver o homem deitado ali pronto para ser buscado pela morte, vai se solidarizando e chegando mais perto, chegando mais perto e abaixa junto ao homem. O homem com um falar lento e agoniado, pede um favor a Arandinho. O homem prestes a morrer pede um BEIJO! Arandinho sem saber o que fazer, fica parado, pensativo. O homem pede mais uma vez e Arandinho toma coragem e lhe dá um beijo.
    Todos que estavam ao redor do homem, viram Arandinho dando um beijo naquela boca. Os comentários e fofocas começam a se espalhar por toda a vizinhança e Arandinho começa a ser vítima de preconceito e chacota por todos. Selminha está em casa quando de repente chega Arandinho ofegante. Ela pergunta o que houve com ele pra estar daquele jeito. Ele não quer falar, pois se sente mal não pelo que fez, mas sim pelos comentários feitos a seu respeito e começa a temer pela integridade de sua mulher. Selminha insiste mas Arandinho não quer falar.
    Aprígio aparece na casa de sua filha e avista Arandinho nervoso. Começa a ler o jornal e toma uma café. Quando se depara com a notícia e fica enfurecido. Arandinho conta tudo a Selminha, que confirma com Arandinho. Aprígio não aceita tal atitude de Arandinho, mesmo Selma tendo perdoado. Aprígio diz coisas horríveis de Arandinho para Selminha e a filha não entende porque todo esse ódio do pai.
    O conflito acaba quando descobrimos que Aprígio é apaixonado por Arandinho e que sempre sentiu ciúmes de Arandinho com sua filha, mas que a deixou se casar – com muito custo – com Arandinho porque pelo menos estaria ao lado dele. Vendo que não teria jeito de acertar as coisas, Aprígio mata Arandinho.
    “O Beijo no Asfalto” é um livro trágico com umas gotas de comicidade que fazem o público rir e se sentirem envolvidos. Afinal, o livro deixa claro que as aparências enganam e podem resultar em morte.




    MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR



    Oswald de Andrade escreveu Memórias Sentimentais de João Miramar entre 1916 e 1923 e o livro, considerado o primeiro grande romance de prosa modernista brasileira, foi publicado no ano seguinte, em 1924.
    A narrativa é fragmentada e sintética, impedindo uma leitura linear e tradicional, e possui um forte caráter cinematográfico transformando os episódios, no total 163 cuja personagem principal é Miramar, em verdadeiras sequências de filmes ao invés dos conhecidos capítulos de romances.
    Cada capítulo tem começo, meio e fim, podendo ser tratado de forma independente, mas não possui uma leitura fácil, pois Oswald de Andrade cria em cada episódio uma charada a ser desvendada.

    Não há nada de especial na narrativa da obra, na verdade, o enredo é considerado bastante banal, pois não há acontecimentos extraordinários ou bombásticos, nem a vitória de um amor verdadeiro ou de alguma causa superior, a inovação e o destaque ficam por conta da linguagem empregada pelo autor e pela forma como ele narra a trajetória pessoal do protagonista.
    João Miramar narra em primeira pessoa sua história pessoal iniciando por sua infância e relatando suas impressões da época. Já adolescente, inclinado à boêmia, viaja para o exterior á bordo de um navio. Depois de alguns anos retorna ao Brasil, devido ao falecimento da mãe, e casa-se com Célia, sua prima, tem uma filha chamada Celiazinha e mantém um romance extraconjugal com uma atriz chamada Rocambola, o que ocasiona o divorcio de Célia. É abandonado pela amante, vai a falência, sua ex-esposa morre e ele tenta recuperar a guarda da filha e a fortuna.

    Obra na integra:

    http://pt.scribd.com/doc/6872033/Oswald-de-Andrade-Memorias-sentimentais-de-Joao-Miramar-Serafim-Ponte-Grande


    POESIA MARGINAL





    Nos anos setenta, logo após o movimento tropicalista, surgiu um tipo de produção poética que foi chamada de Poesia Marginal. Os poemas, geralmente mimeografados (mais acessível na época), grampeados ou simplesmente dobrados, formando livrinhos baratos, eram vendidos em bares, filas de cinemas, teatros, enfim, onde houvesse concentração de pessoas. Esse o movimento cultural, surgiu em função da censura imposta pelo regime militar. Os intelectuais (professores universitários, poetas e artistas em geral) viram nessa forma artesanal, um meio de se expressarem livremente.
    Ana Cristina César, Paulo Leminski (que adorava experimentar a linguagem dos poetas concretos), Ricardo Carvalho Duarte (Chacal), Francisco Alvim e Cacaso foram os poetas mais marcantes desta época.
    Em 1975, publicou-se o livro 26 Poetas Hoje, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda. O livro reunia poemas de vinte e seis poetas da geração marginal. Entre os poetas incluídos no livro estavam: Francisco Alvim, Carlos Saldanha, Torquato Neto, Ana Cristina Cesar, Carlos Ronald de Carvalho (o Charles Peixoto), Ricardo G. Ramos.

    Além dos anos 70, a Poesia Marginal entrou pelos 80 afora.
    Na minha cabeça não tem ideia de moto
    Nem farsa modernista
    Tem minhocas oportunistas
    Empapuçadas de terra.
    Sou mais chegado ao escracho que ao desempenho
    Mais chegado a música que à porrada
    Mais chegado ao vício que à virtude
    Sou pedestre sim senhor
    Sou panfleto de uma sociedade anônima
    Reconhecida entre os ares pesados da cidade.
    (Carlos Ronald de Carvalho Rio de Janeiro, 1948 - pseudônimo Charles Peixoto - poeta e roteirista brasileiro.)



    Ecos no porão – Volume 2


    Gênero: Conto
    Ano de Publicação: 2012
    Época Literária: Contemporaneidade

    AUTOR

    João Paulo Silveira de Souza (Florianópolis, 1933) é considerado um dos maiores contistas brasileiros da atualidade. Publicou, entre outros livros, O cavalo em chamas (Ática, 1981) e Janela de varrer (Bernúncia, 2006). Como contista e tradutor, participou ativamente do Grupo Sul, movimento iniciado em 1948 que trouxe o Modernismo para Santa Catarina. Foi professor de Matemática do Instituto Estadual de Educação e da Escola Técnica Federal de Santa Catarina; dirigiu a Divisão de Informação e Divulgação do Departamento de Extensão Cultural da UFSC; trabalhou no setor de editoração da Fundação Catarinense de Cultura, onde coordenou as Edições FCC. É aposentado do serviço público.

    ENREDO

    “Ecos no porão” apresenta contos de quatro livros de Silveira de Souza, selecionados pelo próprio autor. Portanto, é dividido em quatro partes, cada uma intitulada com o nome do livro de onde provêm os contos.

    Canário de assobio (1985)

    São oito contos deste primeiro livro que abrem o “Ecos no porão – volume 2”. Todos bastante curtos.
    O leitor começa conhecendo “O homenzinho que corria” pela Ivo Silveira, em Florianópolis. “Um velhote muito magro, anguloso, que parecia estar a fazer exercícios de cooper, enfiado num  spalhafatoso e folgado calção verde, usando tênis azul e uma camiseta vermelha que expunha os braços ressequidos e parte dos ombros”, observado pelo narrador- observador que o viu mais algumas vezes e que acabou por ter uma miragem dele quando seu carro bateu em uma caçamba gigantesca.

    Em “O meu secretário”, há um narrrador-personagem com sua identidade obscurecida pelo seu secretário que lhe diz “você tem de criar uma imagem e um estilo, para que enfim as pessoas acreditem naquilo que você deseja que elas acreditem...”, ao que pensa o narrador: “Não me canso de admirar cada vez mais a objetividade e o senso de oportunidade do meu secretário”, apesar do pensamento dele não ter contado em nada. Assim, sempre que uma crise o ameça, o narrador-personagem recorre ao seu secretário, que “como de hábito, vai entender tudo de um relance e vai dizer: ‘É possível. Vamos  rovidenciar’”.

    No conto “Românticas neuroses”, também em 3a pessoa, há a idealização da mulher amada, ou a simples aparição – repetida – de uma mulher na mente do personagem (este sobre o qual não são apresentadas características): “E daí a mulher, a mulher/rosto/corpo, sempre diferente das sonhadas em outras vezes, mas enfim sempre a mesma, indefinida e próxima, surge no espaço em múltiplas situações, numa praia, numa boate, nas ruas centrais apinhadas de gente, num quarto de motel, numa igreja”.“Uma insólita amizade” apresenta o apego de dois personagens muito sozinhos. O quanto se apegaram à simples presença um do outro, não exatamente a possíveis afinidades que talvez tivessem. “Encontraram-se pela primeira vez há cinco ou seis semanas, quando o gordo por acaso e cansado de tanto andar sentou-se no banco ao lado do magro. (...) A partir daí os encontros foram frequentes, quase diários. Se os diálogos que travavam podiam dar, a quem os escutasse, a impressão de confusos ou destituídos de sentido, não havia dúvida de que contribuíram para solidificar uma terna e original amizade”. Até que um dia o magro disse que iria fazer uns exames no dia seguinte. Então que o gordo não estranhou ter chegado à rua Felipe Schmidt e não o ter encontrado. Mas estranhou o magro nunca mais ter vindo dali por diante.

    Em “Porcelanas” há a busca sem fim por mudar aquilo que não se muda. Outro conto em terceira pessoa, a personagem chora a morte de dois gatos seus, aos quais era muito apegada. Tanto que, à morte de cada um, enterrou-os no “jardim cheio de árvores gigantes e palmeiras afiladas” e sobre os jazigos colocou a imagem de cada um em uma louça. Até que teve um terceiro gato, “Kish”, e os dias iam tranquilos com ele, mas “sempre na busca de algum mistério, talvez um ponto vital que pudesse transformar a carne tépida em porcelana”. Não era apenas um choro pela morte de cada gato. Existia um prazer em tal celebração. Marina é a personagem apresentada ao leitor no conto seguinte, “Um nome: Marina”, narrado em primeira pessoa pela própria personagem que apresenta uma intensa relação com seu próprio nome. Começa o conto “Eu me chamo Marina e este nome sempre soou em meus ouvidos como ferro em brasa queimando a carne de uma potra selvagem”, e o termina com “’Eu me chamo Marina!’, gritei para ele, com a voz rouca, antes que a noite se desmanchasse completamente no sangue da madrugada”. Durante o conto, Marina discorre sobre os homens de sua vida.

    “O velhinho das trovas” é o personagem seguinte apresentado ao leitor. O velhinho de trovas como “Chove, chove, chove muito / Chove chuva miudinha; / Se chover na tua cama / Podes vir deitar na minha”, com quem o narrador-personagem teima em sonhar, mesmo sem saber muita coisa sobre ele.

    E, por fim, o conto que dá nome à primeira parte deste livro, “Canário de assobio”, em que o narrador-personagem, mais a personagem Negra, encontram um canário de assobio na rua. Pegam-no e dele passam a cuidar, “Aos poucos, de tanto a gente olhar, dias de sol, de sombra, de chuva, ia tomando para o nosso sentimento uma outra configuração. Eram os movimentos mesmos no espaço limitado da gaiola, individualizantes, que determinavam o nascer (ou fixar-se) das pequenas características”. Mas “Inevitável que um dia as risadas de Negra cessassem”. “O canário desapareceu, camuflado nas folhas verdes de tantas árvores”. O canário não volta mais. E o apego fica.

    Relatos escolhidos (1998)

    Os contos deste segundo livro são mais longos do que os anteriores.
    O primeiro conto escolhido deste segundo livro, por exemplo, é “O olho de Deus”, em que o narrador-personagem escreve utilizando a segunda pessoa do plural, o vós, falando como se fosse um escriba de epístolas conversando com o leitor: “Quero nesta espécie de epístola somente alertar-vos para que, no vosso provável desespero, ou na vossa possível inconsciência, não vos deixei cair em tentação, nem imiteis este que vos escreve, que desviou as suas angústias para os caminhos alienados e não alinhados das noites florianopolitanas (Floriano/politanas)”. E escreve por dez páginas, iniciando sua missiva com “Caríssimo efebos”. Um personagem, insatisfeito com a vida, que relata uma noite de fútil alegria etílica, na qual adentrou o recinto de uma boate e se encantou com uma das dançarinas, a “Nádia negra, a Naja de ébano, vestida num colante sedoso estampado”, com quem teve uma noite inesquecível. E assim arremata o conto: “Porque as coisas que estes homens praticam secretamente, é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isso, uma vez manifesto na luz, fica a descoberto e tudo que é descoberto é luz. Paulo de Tarso, Efésios, 5: 12”.

    Já o conto “Uma voz abafada” volta a ser curto, de apenas três páginas. Nele, o narrador-observador fala sobre “Alguém”, este o personagem, utilizando-se de verbos no imperfeito do indicativo. O personagem deveria fazer algo, chegaria a tal lugar à noite. E jantaria e examinaria. E “poderia esse alguém ouvir de repente uma voz surda, abafada, a extravasar um apelo como o som preso no oco de um búzio: ‘Socorro! Socorro!’”. E de tantas outras coisas devesse dar conta.

    Em “O álbum de ceninhas”, uma clara referência ao cinema, através de um grupo de garotos, em Florianópolis, que se reunia para projetar fotogramas de filmes: “Havíamos feito um orifício retangular na parede do rancho, exatamente na medida dos fotogramas que, na época, chamávamos ceninhas”. Havia o Rafael e seu álbum de ceninhas, que era invejado por toda a turma. “E tão cobiçado por mim, que até cheguei a...”. Sim, o narrador-personagem chegou a roubá-lo de Rafael, ao ir certa vez à casa do amigo, não encontrá-lo lá, mas sim a casa aberta. Mas, ao voltar para a sua residência, quem estava lá o esperando – afinal, fora visitá-lo – era o próprio Rafael. “Ainda guardo comigo a expressão do olhar que me lançou”. É a cena final do conto.A venda do corpo como um negócio com hora e valor combinados.

    Eis “Vidraças partidas”, escrito em terceira pessoa, no qual um velho se encontra com um rapaz para desfrutar do corpo deste. Um velho bem resolvido com a situação, um rapaz incomodado com o fato. Mas que nem por isso o nega.

    E, por fim, há o conto “Cinco dias úteis”, em que há o relato de uma semana comum de um cidadão comum. Na segunda-feira, na repartição pública em que trabalhava; na terça-feira, o convite a uma amiga que sabia fazer magia negra para finalizar um trabalho já começado; na quarta, teve sua atenção chamada pela mulher para olhar os velhinhos, vizinhos, que estavam muito mal; na quinta, procurou um sr. para lhe vender ações telefônicas, mas não o encontrou; e na sexta-feira, voltou a procurar o sr. Virgolino Ferreira, entrou e encontrou Sr. Virgolino com uma peruca ruiva desabrochando um sorriso aliciante. Arqueando o bigodinho preto aparado exclamou: "Eu queria, amor, que você visse isto".

    Colocou um disco na vitrola e começou a rebolar, bater palmas sacudir as pernas, seguindo uma musica que dizia: “Tutti Frutti. Oh, groovy”

    Contas de vidro (2002)

    O olhar encantado do narrador-personagem por “Altamira”, personagem que dá nome ao primeiro conto deste livro que abre a terceira parte (novamente de contos curtos) de “Ecos no porão”: “Na visão dos meus 10 anos de idade, Altamira era referencial, seta apontando para uma longínqua, futura, ainda difusa sugestão de vida ou de amor”. Ela sempre lhe foi “a exatidão do poema do ato da mente”.

    No conto seguinte, “Planos”, o narrador-personagem fala ao ser amado (que o leitor fica sem saber quem é), usando a segunda pessoa do singular, com um sentimento de muita dor, de perda, ameaçando um escândalo, um exagero emocional: “Quero que os teus olhos (...) vejam o movimento rápido de meu braço (...) quando a arma apontar para o meu próprio cérebro e fazer explodir os meus miolos”. Se o comete ou não, obviamente que não há descrição a respeito, uma vez que o conto termina sem tal acontecimento, apenas com o dizer:“Em que hás de compreender que nem todos conseguem viver num plano vazio, absolutamente vazio!”.

    Em “Depoimento”, o leitor ouve o narrador-personagem falar a um doutor sobre a morte de Doracina, mulher com quem, segundo ele, tinha uma “amizade colorida”. Diz não saber o que falar sobre a morte dela, diz que a viu naquela noite, no bailão, entrar acompanhada de um sujeito, e curtir a noite toda. E que, de repente, não mais os avistou no local, e com um sentimento de medo ficou, um mau pressentimento. Foi quando, ao ir para fora do recinto respirar um ar fresco, encontrou o corpo dela, todo esfaqueado. E “agora o senhor diz que é tudo mentira minha, (...) E que algumas pessoas viram Doracina ir sozinha para o corredor dos banheiros depois de trocar umas palavras comigo. Por que eu não me lembro de nada disso?
    As pessoas falam sem pensar, doutor. É tudo pura maldade”. E o conto finaliza dessa forma, com apenas a voz do acusado.

    “Papo da avozinha” é uma hilária conversa entre a avozinha e seu neto, ambos sem nomes apresentados. Diz o neto que o papo da avozinha é muito louco, aéreo, que pouco está entendendo a respeito das falas dela sobre Isaac Newton, Guerra de Tróia, Grande Peste, Revolução Francesa, Mozart ou a gravidade na órbita da Lua, a biologia, a física, a matemática ou a química. E a avozinha é muito ‘delicada’ diante das indagações incrédulas ao chamá-lo de “meu querido imbecilzinho, desculpe, meu netinho”. Por fim, a frase final do conto é uma fala do neto: “- Vozinha, que barato! A senhora é louca!”.

    Em “Ruídos na casa”, o narrador-observador narra um personagem que, dormindo em sua cama, ao lado de sua esposa – casados há trinta anos –, em uma casa na qual há muito moravam, ouve ruídos estranhos vindo de sua própria casa. Levantou-se e, com excitada atenção, foi averiguar. Percorreu todos os cômodos da casa e nada encontrou. “O que havia então, se ainda persistia aquela sensação perturbadora de intimidade devassada, de tranquilidade destruída?”. Havia ele. E uma vida desgastada, vivida sem energia, “uma vida que não legava nenhum vestígio de inquietação criadora. Por detrás daquele rosto, percebeu, havia um grande vazio de alento. E daí lamentou que não tivesse existido nenhum barulho real na casa, mas somente o pulsar de um coração decrépito, que murchava para a vida”.

    “Um, dois, três”, chega! Três casos de saturação, de personagens que não mais aguentavam as condições sociais em que estavam inseridos. Um filho, adulto e desempregado, que discute com a mãe, que sai apressada para pegar o ônibus, que é apedrejado pelos que, com atraso, o esperavam. “’Estão querendo levar o país ao caos. Pode ver-se, por detrás desses acontecimentos, a palavra de ordem de conhecidos desordeiros políticos!’, disse um ministro com aspecto sombrio, à noite, pela TV. Naquele dia, a mãe não conseguiu ir ao trabalho.

    No conto “Diário de campanha”, o narrador-personagem narra já serem três dias acampado numa colina, entre árvores onde armou uma barraca de lona, aguardando a vinda do inimigo. Acendendo fogueiras, caminhando pela mata, colhendo frutos. Até que um dia, recebeu uma mensagem de um companheiro de guerrilha, na qual estava escrito “Entreaberto o portão do amor”. Era uma trégua do inimigo. Com isso, pode novamente se perder pela cidade lá embaixo por mais algum tempo.

    O conto seguinte é “O tubo do sr. Lenard”, um tubo de vidro de aproximadamente 4cm de diâmetro, hermeticamente fechado nas extremidades. Assim dizia o sr. Lenard a três pessoas que o viam e o escutavam, perplexas. E ele continuava discorrendo sobre o tudo e a eletricidade que passava por ele: “Este tubo, fruto de experiências em fins do século XIX, de certo modo fez parte da origem de uma coisa extraordinária: uma revolução microeletrônica já em andamento, que vai apagando as fronteiras entre a existência e a aparência. Cada vez mais seremos, como nos sonhos, fantasmas de uma realidade virtual. As comunicaçõespessoais ficarão extremamente reduzidas e os eventos do mundo serão puras imagens televisivas”. E assim finaliza a sua fala, o sr. Lenard: “Terminaremos um dia, é claro, por
    encarar tais coisas com naturalidade, como quase sempre acontece”.
    “Esse sujeito deve estar louco. Vir com esse tipo de conversa para uma reunião cujo objetivo é discutir o projeto publicitário da Empresa no decorrer deste ano!”. Esta é a fala final do conto “He, he, he, he!”, em que um dos personagens – eram cinco indivíduos impecavelmente bem-vestidos permeando uma ampla mesa de reuniões – cita o “exemplo de Jean de Léry”, autor de Le voyage au Brésil, quando visitou o país em 1557 e conviveu com os índios tupinambás por algum tempo. Jean de Léry ficou, acompanhado de um amigo seu, numa casa cheia de mulheres tupinambás, onde a forma de comunicação entre eles era o sonoro “he, he, he, he”. E o personagem de face rechonchuda e cabeça calva se entusiasmava em contar tal exemplo, finalizando-o, por fim, dizendo: “Um canto sublime, de extraordinária beleza”, diante dos olhares atônitos dos demais que estavam na reunião.

    Por fim, “Contas de vidro” é o conto que fecha esta terceira parte do livro. Uma narrativa em que o narrador-personagem narra sobre o fazer artístico de diferentes figuras e peças com contas de vidro, trazidas por seu amigo Mário, que trabalhava numa relojoaria. Moravam juntos, mais a prima Júlia, de 50 anos e um pouco surda, que cozinhava para todos eles. Muitas peças ele, o personagem principal e narrador, cujo nome não é apresentado ao leitor, conseguiu fazer, mas aquilo não mais o satisfazia como no começo, afinal, “um permanente desafio de criatividade acaba, mais cedo ou mais tarde, por se tornar o mais infernal dos castigos”, e também porque prima Júlia passou a encontrar nas peças algo
    repetitivo, o que o desgostou da mesma forma, acabando por estourar sobre ela com um dizer brusco, mandando-a fazer algo melhor ou desaparecer. No dia seguinte, havia, sobre a mesa na sala de jantar, uma única estranha construção figurativa de dezenas de contas de vidro. E, desde então, eles nunca mais viram Júlia.

    Outros relatos

    Esta última parte de “Ecos no porão” não apresenta uma data, como as outras três. São contos da mesma forma recolhidos por Silveira de Souza, mas não de um livro específico, como os demais deste livro são.

    O primeiro conto é “Grotesca armação” (2000), em que narrador-personagem, acompanhado de Nadir, mata um velho com duas marteladas no pescoço, ficando apavorado diante do fato (“de repente a palavra crime invadiu-me a consciência, adquiriu um peso terrível e inquietante”). Rapidamente, então, os dois limparam o sangue do cadáver e o colocaram no carro, uma Variant “que o velho entregara a Nadir para seu uso”, e partiram para o Morro do Boi, uma rodovia mais deserta àquela hora da madrugada, para jogá-lo do despenhadeiro. Um velho que fazia parte do plano do narrador-personagem e de Nadir, que ficava com ela umas duas vezes por semana, mas que só não poderia: ter se apaixonado por ela, ter enchido a cara e ter comprado briga com o narrador-personagem, tentando expulsá-lo daquela casa. Sentenciou seu próprio destino. Teve o corpo jogado ao mar, e o casal retornou ao carro. E mais um conto que terminou sem o desenrolar dos fatos, mesmo sendo de seis páginas, maior do que a maioria dos demais do livro.

    “Inocente útil” (2007) é uma narrativa em terceira pessoa sobre um personagem que fora preso, com base em suspeitas infundadas, por fazer parte de um grupo de amigos intelectuais e comunistas, e que ficara marcado por isto, passando a não mais reagir perante a nada na vida, sendo auxiliado por Marcela, que no conto dialoga com um doutor, sobre o que fazer por aquele paciente, enquanto ele, o personagem, sorria por viver, desde então, no seu próprio mundo, dentro de sua própria mente, nada mais o importando na vida.

    Em “Quase três horas em Candeias” (2008), há uma narração em primeira pessoa, de um personagem que desembarca em Candeias, e é recebido por D. e V. (D. era amigo do prefeito, “podia escolher qualquer mulher ou quarto onde pudesse amar e dormir”, e V. estava ali também para ajudar em um projeto artístico para o qual foram chamados). Caminharam por algumas ruas (V. bebendo uma latinha de cerveja atrás da outra) e se dirigiram para o Cine Teatro, onde ocorria o ensaio sobre uma peça da qual D. não havia sido informado, algo que o deixou surpreso. Ali ficaram por uma hora e, ao saírem do teatro, D. conseguiu uma kombi para o narrador-personagem, que então voltou para sua cidade, deixando para trás Candeia, a cidade que então já “era um halo fosforescente a incendiar o espelhinho retrovisor esquerdo da kombi”.

    “Associações caóticas” (2008), um curto conto de apenas três páginas – como a maioria dos contos de “Ecos no porão” – é narrado em primeira pessoa por um personagem que vai discorrendo sobre o caos e Deus e outros assuntos ‘para encher linguiça’ com Diocléia durante uma ‘viagem’ de elevador, do térreo ao 21° andar do edifício das Benfeitorias Eternas da Administração Regional. Ela, de calça jeans vermelha, a blusa de seda verde e o tênis com arabescos de várias cores. E ele falando, falando e falando. Ao que ela lhe disse, ao chegarem: “Legal. Posso estar enganada, mas em certos momentos chego a imaginar que você está fora dos 86,7% da humanidade”.
    Por fim, o conto que encerra o livro é homônimo ao mesmo – da mesma forma que os contos que encerram as outras três partes deste livro apresentam o mesmo nome de cada parte, já que são os nomes de três livros do autor, conforme já sinalizado.

    “Ecos no porão” (2007) é uma história de sete páginas narrada em primeira pessoa por um personagem – cujo nome não é apresentado ao leitor – que tinha um pai que lhe pedia para ir buscar o remédio, um frasco de gasosa no armazém da esquina. “Eu sabia que muitas coisas poderiam acontecer em casa nos dias em que meu pai bebia o seu remédio, mas a verdade é que eu gostava daquilo, embora não dissesse nada a ninguém”. Seu pai ficava bebendo dias e dias, sempre o mandando ir buscar a ‘gasosa’, e sua mãe passava esses dias aflita, andando pra lá e pra cá pela casa – uma casa ampla, com muitos cômodos, inclusive um porão. Assim, seu pai discorria sobre assuntos da escola, sofre filósofos e poetas, querendo ensinar ao filho muitas coisas sobre a vida. E também o levou, certa vez, ao porão da casa, onde, antes de entrarem, disse ao filho: “A dissociação mental criativa, ou inspiração, é paradoxal, abstrata. Estive pensando nisso ontem à noite, filho”. E falou mais coisas nesse sentido – sentido nenhum para o filho – e então gritou bem alto: “Valparaííísooo!”. E continuo gritando, e perguntando ao filho se ele podia ouvir aquilo, enfim finalizando: “É isso! A hipocrisia legal; a falsidade do homem – animal em transformação”. E o narrador-personagem passou a gritar com o pai: “Jurisconsuultooo!”. E mais: “Catapooltaaa!”. Ficaram algum tempo a gritar e a rir dos ecos diante daquele porão escuro: “Eu não sabia muito bem o que meu pai queria provar com todo aquele desatino. Mas na verdade não havia nada que se pudesse provar”.

    COMENTÁRIO

    Não se torna possível adjetivar os três livros presentes neste “Ecos no porão – volume 2”. Dizer que os contos do primeiro livro, “Canário de assobio”, são com tal temática, ou que os contos de “Contas de vidro” possuem uma unidade de personagens não é tarefa fácil, nem exata. Há uma variedade de traços e de características nos contos deste autor. Assim como,de temáticas abordadas. O que se pode observar é que as narrativas se concentram em ações curtas e remetem a fatos e a características que ficam a critério do leitor acrescentar. São contos que exigem um leitor autônomo e participativo, no sentido de que não possuem o tradicional início, meio e fim, e sim fragmentos de cenas vividas pelos personagens.

    Há muita referência à cidade de Florianópolis na produção de Silveira de Souza. Em “O homenzinho que corria”, o personagem corre pela rua Ivo Silveira, e em “O olho de Deus”, há um personagem que se deixou perder pelas vielas florianopolitanas – só para citar dois exemplos.

    Os narradores dos contos ora são personagens, ora são observadores. Ora convidam o leitor a acompanhá-los por dentro da narrativa, ora a distância, tomando cuidado com o que poderá ocorrer. O primeiro caso se pode observar, por exemplo, no conto “O meu secretário”, em que o narrador-personagem tem sua própria imagem formada pelo seu secretário, passando a ser um alguém sem identidade própria – uma crítica que Silveira de Souza faz ao modismo de se transformar em alguém puramente com o intuito de chamar a atenção socialmente. E o segundo caso se encontra, por exemplo, no conto “Ruídos na casa”, em que a narração se concentra sobre um personagem paranóico com a ideia de que há alguém invadindo sua casa.

    Em muitos contos, também, o que se pode observar são personagens apegados a detalhes. Personagens vazios de viver, solitários, que a um desconhecido-colega-de-banco-de- praça, ou a um passarinho-encontrado-na-rua- se apegam de modo a sentirem dor pela partida de ambos. Mais um olhar crítico e sensível do autor, desta vez sobre o comportamento social de quem é afligido pela solidão. Palavras do autor: "procuro mostrar o momento, uma situação e, de certa forma, o leitor interage comigo, dando sua interpretação".

    “Com linguagem habilidosa, uma dose do humor e outra da ironia que lhe são características e ainda um olhar lírico para o grotesco, Silveira de Souza parece rir-se baixinho ao final de cada um dos 28 contos onde reside uma possibilidade de descoberta que nunca se entrega sem esforço do leitor”. (Raquel Wandelli, jornalista, UFSC)